Resultados ainda devem vir fracos no 2º trimestre

A recuperação da economia brasileira ficou para o segundo semestre. Ao menos essa é percepção de analistas para a temporada de resultados das empresas, que começa hoje. O endividamento das famílias, após a enxurrada de crédito em 2010 e 2011, trouxe um cenário de inadimplência e apertou o orçamento dos consumidores.

O consumo, antes motor do crescimento, perdeu força. “A visão para o varejo é um gráfico invertido de 2011. O ano passado começou com uma grande expectativa, mas ao longo do ano as estimativas diminuíram”, diz Priscila Tambelli, analista do BB Investimentos. “Já 2012 começa em ritmo mais lento, para melhorar no segundo semestre.”

Empresas de vestuário, alimentos ou comércio virtual “vão sofrer de maneiras diferentes, mas está tudo ligado ao comprometimento das famílias com as dívidas”, sentencia Luiz Cesta, analista de varejo da Votorantim Corretora. Para ele, as companhias de vestuário tendem a mostrar números um pouco abaixo das expectativas, com alta de apenas 2% a 5% nas vendas em mesmas lojas. “Os consumidores estiveram menos impulsivos, preferindo pagar suas dívidas, antes de assumir novos compromissos”, completa.

Já no varejo de alimentos, os consumidores tendem a reduzir gastos, escolhendo produtos mais em conta, o que pode afetar a receita. No caso de empresas de vendas on-line, o crescimento deve ficar entre 15% e 20% neste ano. Apesar disso, a forte concorrência do setor causa a fraqueza de margens, mais do que o cenário econômico.

Do lado produtor, o empresariado, assustado com a crise europeia e com a queda na demanda, aumentou a cautela ao investir. Com isso, a produção industrial marcou em maio a mais forte contração desde setembro de 2009 na comparação com o mesmo mês do ano anterior. A depreciação do real e os juros mais baixos ofereceram certo alívio, assim como os planos de estímulo lançados pelo governo, mas, ao mesmo tempo, o espaço para manobras ficou mais restrito.

Por não serem medidas de efeito imediato, os cortes de juros e pacotes de estímulo à economia serão de fato incorporados somente no terceiro trimestre. Foi a partir de abril, com a pressão do governo para redução dos spreads bancários, que a taxa para o crédito oferecido pelos bancos às pessoas físicas começou a cair de forma mais evidente.

Para a indústria, no entanto, ainda não é possível esperar um bom trimestre, diz o analista Mário Bernardes Junior, da BB Investimentos. “O plano Brasil Maior, que inclui a desoneração da folha de pagamentos e a facilitação dos financiamentos via BNDES, tende a melhorar o desempenho do setor, mas somente a partir do terceiro trimestre”, diz.

Por enquanto, o que se pode esperar é que empresas de bens de capital, como Indústrias Romi e WEG, sofram mais com a falta de investimentos do empresariado. Já empresas atreladas ao setor automotivo, como Mahle Metal Leve e Autometal, tendem a ter um desempenho melhor. Fabricante de peças para caminhões, como a Randon, também sofrem com o desaquecimento da economia.

No setor siderúrgico, há uma diferença clara entre as produtoras de aço longo e plano. O mercado do primeiro tipo é dominado pela Gerdau, que está com espaço para poder reajustar seus preços. No segundo caso, porém, Usiminas e CSN encontram dificuldades de cobrarem mais por seus produtos, além de enfrentarem custos mais caros com o minério de ferro e o carvão em alta.

Rafael Weber, analista do Banco Geração Futuro, explica que a demanda para esses produtos também se encontra bem mais reduzida, na comparação com a oferta elevada. Estoques se acumularam nos últimos trimestres e, ainda por cima, a competição com importados está afetando o desempenho das empresas. “Se o preço aumentasse demais, o mercado passaria a comprar aço lá de fora”, avalia.

Por isso, frente ao primeiro trimestre, principalmente Usiminas deve apresentar um desempenho pior no resultado entre abril e junho. No caso da CSN, o custo do carvão vai pressionar seu balanço operacional, mas como a empresa tem um segmento de mineração forte – que chega até a exportar excedentes -, deve haver um alívio.

Já para as mineradoras, o momento é inversamente proporcional. O minério de ferro continua com preços altos e a procura pela commodity ainda está maior do que a oferta. “A demanda continua forte principalmente na China”, diz Weber. Henrique Florentino, da UM Investimentos, aponta também para um trimestre sem parada na produção da Vale com demanda chinesa estável, o que deve trazer melhores números do que no primeiro quarto do ano. “Dificilmente vai ser pior.”

No caso de petrolíferas, a cotação do produto no exterior também é positiva. A Petrobras, principal produtora de petróleo do Brasil, no entanto, deve ter um balanço fraco entre abril e junho. Isso porque a divisão de refino segue afetando sua operação. Como o real continuou desvalorizado, o custo de importar os derivados e vendê-los no mercado interno deve novamente tornar as contas negativas nesse segmento. “O problema é que temos visto uma demanda de combustíveis bem maior do que a oferta”, analisa Marcos Pereira, da Votorantim Corretora.

Por isso, enquanto exploração e produção devem ter um desempenho no segundo trimestre em linha com o que foi observado no começo do ano, a fatia de derivados pode ter sido até pior na comparação entre períodos. Nataniel Cezimbra, do BB, ainda cita o endividamento em dólar como um problema a ser observado no balanço da estatal. Seu resultado financeiro pode ter baixa, já que as obrigações em moeda estrangeira chegam a 55%, afirma o analista.

Valor Econômico – Por Tatiane Bortolozi e Renato Rostás | De São Paulo